Para além das paredes de concreto, salas e espaços, um equipamento vivo, que edifica sonhos e transforma vidas. Assim é a Cidade do Saber (CDS), um dos maiores complexos de inclusão social da América Latina, um lugar pulsante que faz parte da memória afetiva de muitos camaçarienses e que voltou a inspirar crianças, jovens e adultos, impulsionando oportunidades através da integração entre cultura, esporte, educação e tecnologia.
O tema norteador de 2026 dos cursos desenvolvidos por lá, “Cidade do Saber: Lugar de Acolhimento, Usina de Saberes e Resistência”, é carregado de significância e traduz diversas histórias: gente que encontrou novas perspectivas a partir das aulas de que participa no complexo, equipamento da Prefeitura de Camaçari, gerido pela Secretaria de Cultura (Secult).
Entre os 3 mil alunos das diferentes modalidades, para Catiana da Silva Souza, 36 anos, a CDS possibilitou a realização de um sonho que nutre desde a infância: o de tocar violino. “Tenho uma grande paixão pelo instrumento. A música sempre esteve em minha vida; meu pai colocava discos de vinil e, juntos, ouvíamos aquelas belíssimas músicas. Sinto também essa essência pelo meu avô, que era um grande sanfoneiro e zabumbeiro. Nas minhas veias pulsa esse sangue com sede de música”, rememora a técnica em automação industrial, moradora do bairro Nova Vitória.
Após ver o sonho poder se tornar realidade, Catiana serviu de inspiração para a filha, Karyne Silva Rocha, 15 anos, que atualmente também é aluna de violino da Cidade do Saber. “Estar aqui juntamente à minha filha é algo que me deixa orgulhosa e honrada. Isso me completa, me deixa mais feliz. Tocar é uma grande terapia, me alimenta e faz com que eu venha a respirar cada vez com mais tranquilidade e leveza”, afirma Catiana.
Karyne também relata, cheia de emoção, como o curso desenvolvido no complexo tem impactado sua vida. “A música é algo que nos traz paixão e magia. A gente coloca um fone de ouvido, escuta algo e sente uma sensação tão diferente, tão única... se sente livre. Por isso que eu amo estar aqui na CDS e amo tocar violino. A minha mãe me incentivou a sentir isso. E, inclusive, ter aqui esse público de diferentes idades é ótimo porque podemos englobar várias culturas, adquirir novos conhecimentos.”, expressa.
A vivência de tocar o instrumento dos sonhos levou a adolescente a também se desenvolver em outros aspectos. “Poder tocar violino, que é um instrumento tão belo, me levou a muitos lugares e pôde mudar meu pensamento, até mesmo minha forma de falar, e tudo isso me deixa muito feliz, me deixa ‘quentinha por dentro’”, afirma.
Histórias como a de Catiana e Karyne são reflexo do impacto transformador da Cidade do Saber na vida de famílias inteiras, realidade que também se repete na trajetória de outra dupla de mãe e filha, desta vez unidas pelo canto.
Moradora do Verdes Horizontes, a autônoma Joelma Bezerra Alencar, 47 anos, já fazia parte do coral da igreja a qual frequenta e, ao ir à CDS no ano passado para fazer a matrícula da filha, resolveu também ingressar nas aulas.
“Eu já tinha interesse em fazer canto, porém não encontrava oportunidade. Quando vim fazer a inscrição da minha filha, resolvi também entrar e tenho achado excelente. Estou aprendendo muito e me desenvolvendo. Este lugar é muito importante para o município, principalmente pelos cursos, tanto de cultura quanto de esporte. Tem impactado significativamente na minha vida, na de minha filha e, tenho certeza, na de muitos camaçarienses”, destaca.
Filha de Joelma, Isabelle Bezerra Alencar, 14 anos, também conta com carinho sobre a oportunidade de fazer parte da ‘família CDS’. “Eu já cantava na igreja, sempre gostei de cantar e vi aqui, nas aulas, a oportunidade de melhorar. Tem sido incrível, aprendi coisas novas e é algo muito divertido, como se fosse uma terapia também. A Cidade do Saber dá oportunidade a muitas pessoas”, enfatiza a jovem, que também já foi aluna de dança contemporânea no complexo.
Experiências como essas não são exceção, mas parte de uma rede de afetos e descobertas que se renova diariamente no equipamento, como na trajetória de um pai e um filho que, entre notas e batidas, encontraram na música um espaço de conexão e aprendizado, divididos entre a bateria e o trombone.
Ari Marcos de Brito dos Santos, 45 anos, teve o primeiro contato com a bateria há alguns anos, em aulas de música na CDS, e agora pôde retomar os aprendizados. “Quando pequeno, eu era percussionista, então, desde essa época, eu gostava de instrumentos e, muito tempo depois, aqui, pude aprender a bateria. Atualmente, meu filho também faz aulas, pois acredito que a educação musical é importante e é preciso que a gente fortaleça isso e incentive, até mesmo pensando em termos um futuro melhor para a nossa juventude”, diz o operador, residente do Parque das Mangabas.
Fruto desse incentivo, o filho de Ari, Aylon de Brito dos Santos, 11 anos, começou a desbravar o ‘mundo da música’ e ingressou no curso de trombone. Com jeito tímido, mas cheio de coragem para encarar o desafio de aprender a tocar um instrumento, o garoto tem gostado da experiência. “Comecei este ano e estou achando ótimas as aulas. O trombone é um instrumento muito legal e é algo que acredito que levarei para o resto da vida”, fala.
Os cursos da CDS abraçam uma diversidade de saberes: dança do ventre, de salão e contemporânea, além de capoeira, balé, zumba, teatro, desenho e pintura. Há ainda uma ampla formação musical, com cursos de violão, bateria, canto e coral, teclado, trompete, viola, violino, clarinete, saxofone, contrabaixo, violoncelo, flauta doce, flauta transversal, trompa, trombone, tuba e percussão. Também fazem parte da programação, oficinas de robótica com LEGO e Scratch.
A grade ainda é composta por atividades promovidas pela Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude (Sejuv), como jiu-jitsu, karatê, natação, hidroginástica, basquete, boxe e vôlei. Ao todo, cerca de 16% dos alunos são pessoas com deficiência (PcD) ou neurodivergentes.
A vocação transformadora do complexo vai para além dos cursos. Quando as cortinas do Teatro Cidade do Saber (TCS) se abrem, espetáculos e eventos inspiram a cidade, reunindo arte, emoção e encontros. Do outro lado da plateia, pisar no palco do terceiro maior teatro da Bahia é, para muitos fazedores de cultura de Camaçari, a possibilidade de compartilhar, fortalecer e dar visibilidade a seu trabalho, sendo um espaço onde a arte ganha voz, corpo e permanência.
As dependências do equipamento também abrigam uma brinquedoteca lúdica; a Biblioteca Castelo da Leitura, que conta com um acervo rico e diverso; um Laboratório Maker moderno, voltado à inovação e à tecnologia; além das instalações do Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação da Universidade Federal da Bahia (ICTI/UFBA) – Campus Camaçari, consolidando a Cidade do Saber como um polo que conecta as pessoas ao aprendizado e à criatividade, sendo vetor de transformação social.