A superlotação de hospitais estaduais e a demora no atendimento de pacientes voltaram ao centro do debate sobre a saúde pública na Bahia. O governador Jerônimo Rodrigues (PT) cobrou maior participação das prefeituras na oferta de serviços de saúde e apontou a falta de hospitais municipais e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) em grandes cidades baianas como um dos fatores que pressionam a rede estadual.
A declaração foi feita na noite desta quarta-feira (28), durante entrevista ao programa Boa Noite, Bahia, da Bahia FM 88.7. Na ocasião, Jerônimo citou Feira de Santana, Vitória da Conquista e Jequié, além de Porto Seguro e Barreiras, ao defender que os municípios ampliem a estrutura de atendimento para evitar que casos que poderiam ser resolvidos localmente cheguem aos hospitais de alta complexidade mantidos pelo Estado.
Segundo o governador, unidades como o Hospital Geral Roberto Santos e o Hospital Geral do Estado (HGE), em Salvador, o Hospital Geral Clériston Andrade, em Feira de Santana, e o Hospital Geral Prado Valadares, em Jequié, recebem pacientes que, na avaliação dele, poderiam ser atendidos inicialmente pela rede municipal.
“Chegar agora no Hospital Roberto Santos ou no Geral, cê vai ver que tem muita gente ali que não era pra estar. Cê chega ali no Clériston Andrade em Feira de Santana, chega lá que você vai encontrar, se não encontrar 80%, vai encontrar mais. Porque o município não oferta atenção básica”, afirmou.
Governador questiona estrutura de saúde nos municípios
Durante a entrevista, Jerônimo destacou o tamanho populacional de Feira de Santana e Vitória da Conquista para questionar a ausência de hospitais municipais nessas cidades. O governador argumentou que municípios de grande porte precisam dispor de uma estrutura própria capaz de atender parte da demanda da população.
“Pesquise aí. Qual município no Brasil com 700 mil habitantes que não tem um hospital municipal? Feira de Santana é um deles”, declarou.
Em seguida, ele também citou Vitória da Conquista e Jequié, criticando a estrutura disponível para atendimentos de urgência e emergência.
“Conquista não tem hospital municipal. Jequié não tem uma UPA. Uma UPA é um hospital simples que dá conta de alguns problemas mais graves”, afirmou.
Jerônimo sustentou que ampliar a rede estadual, por si só, não seria suficiente para resolver os problemas de acesso à saúde se os municípios não fortalecerem os serviços sob sua responsabilidade.
“Enquanto não tiver hospitais municipais ou UPAs, eu posso fazer 300 hospitais. Porque você foi ali no quintal, desmentiu o dedinho do pé, você não tem um hospital municipal, não tem uma policlínica, não tem uma UPA”, criticou.
Jerônimo relaciona atenção básica à fila da regulação
O governador também abordou as críticas ao sistema estadual de regulação, responsável por organizar o acesso de pacientes a procedimentos, exames, tratamentos e cirurgias na rede pública.
Ao rebater questionamentos sobre a demora no atendimento, Jerônimo defendeu que a melhoria da atenção básica municipal pode contribuir para reduzir a pressão sobre os hospitais estaduais e diminuir o tempo de espera por serviços especializados.
“Esses prefeitos ficam abrindo a boca pra dizer da regulação. Se os prefeitos fizerem o dever de casa, Salvador fizer, se Feira de Santana fizer, eu tenho certeza que nós haveremos de reduzir o tempo de exames, de tratamentos e de cirurgias”, declarou.
A fala ocorre em meio ao debate sobre a divisão de responsabilidades entre Estado e municípios no Sistema Único de Saúde (SUS). Enquanto a atenção básica é organizada principalmente pelas prefeituras, o atendimento de média e alta complexidade envolve diferentes níveis de gestão e depende da articulação entre as redes.
Estado anuncia construção de UBS em Vitória da Conquista
Apesar das críticas direcionadas às administrações municipais, Jerônimo afirmou que o governo estadual está disposto a colaborar com as prefeituras para ampliar a estrutura de atendimento.
Como exemplo, citou a construção de nove Unidades Básicas de Saúde (UBS) em Vitória da Conquista, que deverão ser entregues à administração municipal.
“É pra mim? Não, vou fazer e entregar, prefeita. Vai ver se ela consegue melhorar a atenção básica em Conquista”, afirmou, dirigindo-se à prefeita Sheila Lemos.
O governador declarou ainda que suas cobranças não são motivadas por “ironia ou rancor” e reiterou que pretende manter o diálogo com os gestores municipais.
A discussão evidencia o desafio de integrar os serviços de saúde na Bahia, especialmente em cidades de grande porte, onde a demanda por consultas, exames, atendimentos de urgência e procedimentos especializados exige articulação entre as redes municipais e estaduais.